quando era pequena às vezes o arroz branco vinha em forma de bolo, no prato, ao lado de um bife geralmente.
nas minhas férias de algarve havia sempre um dia em que comíamos pudim de arroz, que era arroz com atum e tomate, numa forma de pudim. frio e com um buraco no meio. eu gostava. nunca mais comi mas acho que deve saber a bóias amarelas e toldos às riscas.
na primária levava o almoço para a escola num termos (como é que se escreve termos?). todos os dias tomava o pequeno almoço à mesa da cozinha, pão de leite com queijo e leite pela palhinha, enquanto o dito termos era preparado ali ao lado. nunca perguntei o que ia lá dentro. era sempre uma surpresa quando o abria, no colégio, quatro horas mais tarde. rezava sempre para que não fosse arroz branco com ovos mexidos e fiambre. às vezes era. nunca disse a ninguém que não gostava e que aquilo ficava sempre com uma água esquisita. não sei porquê. não a água mas o não ter dito.
quando éramos pequenos havia muita coisa que não contávamos aos adultos. não era para contar tudo. havia segredos e era assim que era para ser. coisas que eram só dos adultos e coisas que eram só nossas. às vezes tínhamos conversas, longas e importantes ou circunstanciais e irrelevantes. mas nunca contávamos tudo, nem sempre tudo o que contávamos era verdade. inventávamos histórias, coisas que se tinham passado na escola, amigos que imaginávamos, aperfeiçoando o relato e os detalhes. a verdade era quase sempre só para nós. demasiado fantástica para eles acreditarem.
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